28/11/2009 08:36
O mala do Rubão.
Por Seu José

Rubão é o cara mais chato que já conheci.

Desde os doze anos ele azucrinava a vida de todo mundo. Se ele quisesse algo, conseguia. Não por merecimento, mas por insistência. Quando estava irritado, resmungava e grunhia como uma hiena.

Dia das Crianças, Natal, Ano Novo, Páscoa, aniversário, Carnaval, enterro, viagem e Dia do Trabalho. Qualquer data era motivo para Rubão, na época apenas Rubinho, fazer sua imitação de hiena.

Eu e Rubão estudávamos no mesmo colégio e mais precisamente na mesma sala, mas nunca gostei dele. Ele era realmente chato. Porém, como há coisas na vida que a gente não escolhe, quis o destino que eu me apaixonasse por Cris, sua irmã gêmea.

Quando se tem doze anos (ou mesmo mais) é complicado agradar as meninas. As opções na época eram bastante restritas: oferecer guloseimas no intervalo das aulas, dançar nas festinhas americanas, enviar um bilhetinho, mandar um correio elegante nas festas juninas, tentar ganhar um beijo na brincadeira do casamento atrás da porta e coisas do tipo. Eu havia tentado tudo isso, porém, sem sucesso. Já conformado pelo meu insucesso na empreitada, fiz o que qualquer um faria no meu lugar: fingi amizade pelo irmão com o intuito de me aproximar da irmã.

No início foi difícil conviver com Rubão, uma vez que sua chatice transcendia qualquer sentimento que eu pudesse sentir por Cris. Ele não brincava na rua para não sujar as roupas, ninguém podia mexer em seus livros encapados, não permitia que tocassem em seus trabalhos escritos em alvas folhas de papel almaço, lavava as mãos 53 vezes por dia, mastigava os alimentos 81 vezes; dormia, acordava, tomava banho e defecava sempre nos mesmos horários. Petiscava o dia todo. Quando você menos esperava, ele estava lá ruminando. Levava sua escova de dente sempre consigo, dentro de um estojo de couro. Toda vez que ele comia alguma coisa no colégio, pegava seu equipamento e ia escovar os dentes (por 3 minutos), passar fio dental e depois fazia bochecho com flúor. Seu lanche era embrulhado (por ele mesmo) com papel alumínio, que ele sempre dobrava e levava pra casa, a fim de reutilizá-lo no dia seguinte.

Superei todas essas mazelas para poder ficar mais perto da Cris. Sempre que possível eu ia à casa de Rubão e fingia brincar com ele, podendo assim ver o objeto de minha paixonite. Era ela que me atendia à porta:
— Oi José.
— Oi Cris.
— O Rubinho está no quarto. Pode entrar.
— Obrigado...

Semanas se passaram sem que eu tomasse iniciativa ou falasse qualquer coisa que pudesse revelar minhas intenções. Eu só ficava olhando para ela de soslaio, espiando sempre que surgisse alguma oportunidade. Quando ela ia ou vinha caminhando, lá estava eu e minha cara de sonso.

Rubão, que é mais chato do que burro, aos poucos percebeu que havia algo estranho. Com o passar do tempo começou a me espiar com desconfiança toda vez que eu tentava roubar um olhar ou um sorriso da Cris. Não demorou muito para que Rubão ficasse cada vez mais enciumado e, quando menos esperei, ele se afastou de mim.

No início achei que fosse bobeira e tentei de todas as maneiras reatar nossa “amizade”. Depois percebi que Rubão não só era chato, como também era um grandessíssimo filho da puta. Ele estava me boicotando.

Com a impossibilidade de visitar Cris em sua própria casa, tive que me contentar com nossos breves encontros no recreio do colégio. Não era a mesma coisa, uma vez que Rubão também ficava de olho e o inspetor do pátio não permitia conversas “muito próximas”.

Algumas semanas depois de nosso afastamento forçado, percebi que a Cris e suas amigas estavam sempre sorridentes e cochichando toda vez que eu estava por perto. Escondiam o rosto, envergonhadas, e ficavam serelepes. Era como se eu estivesse vestindo a calça do uniforme do lado avesso ou usando uma meia de cada cor. Coisas que de fato já haviam ocorrido comigo mais de uma vez.

Ao descobrir as razões desse estranho comportamento das meninas, promovi Rubão ao mais alto patamar dos escrotos. No auge de querer me foder, ele revelou meus sentimentos amorosos por sua irmã aos seus pais, meus pais, professores, inspetor, à tia da cantina, ao tio da pipoca, à dona Tuca da limpeza, ao seu Alberto do almoxarifado e à própria Cris e suas amigas. Rubão distribuía bilhetinhos pra todo mundo com dizeres do tipo: “O José gosta da Cris”, “O José compra docinho pra Cris”, “O José faz xixi na cama”. Desgraçado filho da puta.

Um dia a tia da cantina me ofereceu um chocolate de presente a fim de que eu o regalasse à Cris. “José, o que você sente por ela é lindo. Aproveite”. Todo mundo na fila dando risada da minha cara. Velha desgraçada.

Outra vez fui ao banheiro fazer cocô e quando sentei no vaso sanitário li na porta (toda pichada) a seguinte frase: “É aqui que o José senta quando pensa na Cris”.

Um dia, pelos alto-falantes da escola, a diretora anunciou os recados e dentre eles tinha um “para mim”: “José, sua mãe ligou pedindo para lembrá-lo que você deve tomar seu remédio e comer seu lanche”.

Eu que, como diria o outro, já havia esgotado o cálice da amargura até às fezes, mandei tudo à merda, incluindo o Rubão e a diretora – fato que ocasionou minha expulsão do colégio. O tempo passou, perdi contato com todo mundo da antiga escola, fiz faculdade de jornalismo e toquei minha vida.

Uma noite, porém, já mais experiente e desvirginado, encontrei Cris em uma festa de ano novo. Conversa vai, conversa vem, Rubão pra cá, cervejas, Rubão pra lá, calor, decote, cervejas, saia curta, testosterona, cervejas, diminuição da percepção, euforia sem sentido, cervejas, perda de equilíbrio, mão boba na cintura da Cris, retribuição com sorrisinho maroto, ereção...

— 10, 9, 8, 7, 6, 5, 3, 2, 1... Viva! Feliz ano novo, adeus ano velho. Que tudo se realize...

Passamos a noite juntos. No dia seguinte tomamos café da manhã e almoçamos. Saímos por três meses, começamos a namorar e decidimos morar juntos.

Neste ínterim eu e Rubão já havíamos restabelecido nossa amizade (agora sincera). Ríamos daquelas coisas bobas da época de colégio e nos divertíamos lembrando como tudo era diferente quando éramos crianças. Rubão ainda não era o cara mais legal do mundo e além de tudo agora usava aqueles óculos enormes apoiados sobre as bochechas.

Com o aumento natural de nossa intimidade, Rubão um dia me confessou seus sentimentos por Alcione. Disse-me que havia encontrado sua alma gêmea, mas estava com vergonha e não conseguia externar o que sentia. Ele e Alcione já saíam juntos há 8 meses, mas ninguém sabia de nada. Rubão tinha dúvidas se poderia ou não assumir o relacionamento, se era realmente aquilo que queria, se não era um passo grande demais, e todas essas dúvidas comuns às questões do amor.

Quando eu e Cris resolvemos nos casar, escolhemos fazer um simples almoço com familiares e amigos para celebrar a ocasião. Um pouco antes do evento percebi o quão agoniado estava Rubão. Disse-me que estava nervoso pois havia decidido contar a todos sobre Alcione, e que estava pensando em aproveita a ocasião festiva para avisar que eles pretendiam morar juntos. Parabenizei-o e garanti que sem dúvida essa era a decisão correta a ser tomada, e que eu iria ajudá-lo, dentro do possível, a tirar esse fardo dos ombros.

O almoço transcorreu normalmente e, logo após ter feito o anúncio de nosso casamento, decidi que poderia dar uma mãozinha ao Rubão:
— Pessoal, além de ser uma data muito importante para mim e para a Cris, hoje também é um dia especial para o Rubens. Todos sabem que nos conhecemos desde crianças e que já tivemos alguns desentendimentos bobos e infantis típicos da idade. É lógico que tudo isso ficou para trás, especialmente depois que reencontrei a Cris. De qualquer forma, gostaria de dizer a vocês que talvez a Cris não seja a única da família a se casar em breve. Rubão, meu grande amigo Rubão, está com seu coração já habitado pelo que parece ser um grande amor. Acho que temos grandes notícias por aí...

— Rubão. Não se envergonhe. Venha aqui. Fale sobre sua alma gêmea. Pessoal, seu nome é Alcione. Vem cá Rubão. Fale aqui pra gente seus planos. Seus familiares vão gostar de saber que você quer constituir família...

Rubão se levantou e, ao invés de contar sua história, saiu chorando. Rebuliço, correria, mal estar e eu ainda com o braço erguido em pose de brinde. Alguns familiares foram atrás do Rubão e outros ficaram na mesa. Estes que permaneceram fitavam um jovem que estava sentado ao lado de Rubão.

— José, cochichou-me Cris. Como é que você sabia disso?
— Sabia do quê?
— Ué! Que o Rubão e o Alcione estavam juntos.
— Como assim “o” Alcione? Quem é “o”Alcione?
— Alcione é um primo nosso. É aquele rapaz ali... Ele tem 16 anos... Você não se lembra dele, José?

Fingindo surpresa, sentei-me.
Cris alternava seus olhares entre mim e Alcione e após alguns instantes levantou-se e foi atrás de seu irmão.

Completei minha taça com vinho e garfei mecanicamente um resto de comida já fria.
Dei um longo gole.
Era impossível ver meu sorriso envolto pela bebida.

Duas semanas depois, corroído pela vergonha, Rubão se matou. Cris jogou toda a culpa em mim e cancelamos o casamento. Alcione fez uma operação para mudança de sexo mas não precisou trocar os documentos e continua se chamando Alcione.

Mentira.

Rubão e Alcione vivem juntos até hoje, em Londres.
É o casal gay mais chato que conheço.

enviada por Seu José


19/09/2009 08:54
Primeiro as primeiras coisas.
Por Seu José

Sem qualquer pretensão retirei “primeiras frases” de alguns livros (escolhidos randomicamente) e compilei aqui. As frases não são necessariamente geniais, mas possuem algum tipo de beleza ou significado (pelo menos para mim). Prólogos, epílogos, introduções e afins não contam. O que vale mesmo é a primeira fase do primeiro capítulo. Ou seja, até o ponto final (exclamação, interrogação ou reticências). A lista está ordenada em ordem alfabética por sobrenome de autor e, sendo assim, não reflete nenhuma preferência.

O intuito é apenas passatempo.

“Resumo dos últimos capítulos: no início, o universo foi criado.” – O restaurante no fim do universo. Douglas Adams.

“Era uma deslumbrante tarde de quatro sóis.” – O cair da noite. Isaac Asimov.

“Eu tinha cinqüenta anos e há quatro não ia pra cama com nenhuma mulher.” – Mulheres. Charles Bukowski.

“Hoje, mamãe morreu.” – O estrangeiro, Albert Camus.

“O bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo: pois cada um pensa estar tão bem provido dele, que mesmo aqueles mais difíceis de se satisfazerem com qualquer outra coisa não costumam desejar mais bom senso do que têm.” – Discurso do método, René Descartes.

“Ele veio chutando a neve funda.” – Espere a primavera, Bandini. John Fante.

“O velho chama-se Santiago.” – O velho e o mar. Ernest Hemingway.

“Brother to a Prince and fellow to a beggar if he be found worthy.” – O homem que queria ser rei. Rudyard Kipling.

“Ao relatar as circunstâncias que me levaram a ser confinado neste refúgio para dementes, tenho consciência de que minha presente condição criará uma dúvida natural quanto à autenticidade de minha narrativa.” – A tumba. H.P. Lovecraft.

“Call me Ishmael.” – Moby Dick. Herman Melville.

“Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne.” – Lolita. Vladimir Nabokov.

“A desgraça é variada.” – Berenice. Edgar Allan Poe.

“Para a muita estranha embora muito familiar narrativa que estou a escrever, não espero nem solicito crédito.” – O gato preto. Edgar Allan Poe.

“Suportara eu, enquanto possível, as mil ofensas de Fortunato.” – O barril de amontillado. Edgar Allan Poe.

“Now is the winter of our discontent
Made glorious summer by this sun of York;
And all the clouds that loured upon our house
In the deep bosom of the ocean buried.” – Ricardo III. William Shakespeare.

“Numa toca no chão vivia um hobbit.” – O hobbit. J. R. R. Tolkien.

“Cambaleou na luz negra do inferninho: quanto mais escuro, mais lindas rainhas.” – A gorda do Tiki Bar. Dalton Trevisan.

“Tudo isso aconteceu, mais ou menos.” – Matadouro 5. Kurt Vonnegut.

enviada por Seu José





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